Por que o Brasil é diferente
Quando Plutão esteve em Aquário pela última vez, entre 1778 e 1798, a Europa e os Estados Unidos viviam revoluções que proclamavam liberdade, igualdade e fraternidade. O Brasil vivia uma realidade radicalmente diferente. Éramos colônia de Portugal, a escravidão estava no auge, e as tentativas de mudança foram esmagadas com violência exemplar.
Isso significa que os buracos deixados pelo ciclo anterior têm, aqui, uma marca específica. As promessas iluministas chegaram distorcidas, incompletas, e muitas vezes como justificativa para a manutenção da opressão. Entender essa história é fundamental para compreender o que está sendo transformado agora.
A escravidão no auge
Enquanto a França revolucionária discutia direitos humanos, o Brasil recebia o maior fluxo de africanos escravizados de sua história. Estima-se que cerca de cinco milhões de africanos foram trazidos ao Brasil durante todo o período escravista — mais do que qualquer outro país das Américas. A proporção era de aproximadamente quatro homens para cada mulher, porque o objetivo era força de trabalho, não construção de famílias.
As mulheres escravizadas viviam uma dupla opressão: eram força de trabalho nos roçados, na construção, no serviço doméstico e no comércio ambulante — e eram também vítimas sistemáticas de violência sexual. Forçadas à reprodução, à lactação, à prostituição. Seus corpos eram propriedade legal de outros.
1789: a revolução que não ousou libertar
No mesmo ano da Revolução Francesa, um grupo de intelectuais, militares e fazendeiros de Minas Gerais conspirou para separar a capitania de Portugal. A Inconfidência Mineira foi influenciada diretamente pelas ideias iluministas e pela independência dos Estados Unidos — os inconfidentes tinham em mãos uma coletânea de textos constitucionais norte-americanos publicada em Paris em 1778.
Mas aqui está o buraco fundamental: a Inconfidência Mineira não propôs o fim da escravidão. Como muitos de seus líderes eram proprietários de pessoas escravizadas, a ideia simplesmente não avançou. A liberdade que queriam era a de não pagar impostos a Portugal — não a liberdade dos corpos negros.
Tiradentes, o único enforcado e esquartejado, era o de menor posição social entre os líderes. Os outros — fazendeiros, poetas, padres — foram exilados ou perdoados. A punição exemplar recaiu sobre quem tinha menos poder.
1798: a revolução que ousou — e foi esmagada
Nove anos depois, em Salvador, aconteceu algo radicalmente diferente. A Conjuração Baiana — também chamada de Revolta dos Alfaiates ou Revolta dos Búzios — foi um movimento popular, liderado por negros, pardos, escravizados, libertos, alfaiates, sapateiros e soldados de baixa patente.
Diferente da Inconfidência, a Conjuração Baiana propôs explicitamente a abolição da escravidão e a igualdade racial. Os panfletos de 1798 anunciavam o tempo em que todos seriam irmãos, o tempo em que todos seriam iguais.
A repressão foi brutal. Dos 49 presos, a maioria era negra. Os quatro líderes executados — João de Deus do Nascimento, Manuel Faustino dos Santos Lira, com apenas 18 anos, Luís Gonzaga das Virgens e Lucas Dantas — eram todos negros ou pardos. Foram enforcados e esquartejados, seus corpos expostos pela cidade como exemplo. Os intelectuais brancos que participaram receberam penas brandas ou foram absolvidos.